Uma postura “anti-Brasil” se difunde entre jovens brasileiros em discursos que se reforçam nas redes sociais: o termo “Bostil”, o culto ao que é estadunidense, o desprezo pelo nacional, o flerte com a separação Sul-Sudeste/Norte-Nordeste e a tentativa de descolar o país da identidade latino-americana. Não é um movimento organizado, mas um conjunto de narrativas da extrema direita com forte apelo juvenil para entregar o país de bandeja para os exploradores internacionais como EUA e Israel.

Bostil: fusão de “Brasil” com “bosta”, popularizada por volta de 2020. Deixou de ser desabafo pontual para virar etiqueta identitária (“bostileiro”). A crítica costuma mirar os mais pobres, tratando problemas sociais como “gente de baixa qualidade”, enquanto elites e estruturas ficam intocadas — revolta seletiva.

Culto ao estadunidense: os EUA são imaginados como padrão de “país normal”; o que é brasileiro (samba, funk, carnaval) é rotulado de atrasado, e consumir cultura estadunidense vira sinal de bom gosto. O problema não é gostar do estrangeiro, é internalizar que “o brasileiro é pior”.

Separatismo: a ideia de separar Sul-Sudeste do Norte-Nordeste reaparece em memes e vídeos curtos, reduzindo questões complexas de repartição fiscal a slogans como “estamos sustentando preguiçosos”. Ignora que a Constituição não permite a separação.

O Brasil não é América Latina: a distância histórica real (língua, trajetória imperial) é convertida em corte: o país é descrito como “não sendo a mesma coisa” que os vizinhos pobres e instáveis. A rejeição se alimenta da cobertura midiática que mostra a região só como catálogo de problemas, enquanto idealiza os EUA.

Quem ganha: todos esses discursos convertem problemas estruturais (desigualdade, sistema tributário, representação política) em “defeitos essenciais” de cultura ou região. Se o problema é que “brasileiro não presta”, discutir reforma tributária ou concentração de terra fica dispensável. E o desfecho mais próprio é este: quem se beneficia do caos é um ator estrangeiro agindo nas sombras, interessado em criar instabilidade para surrupiar as riquezas do país — as terras raras, o petróleo da margem equatorial, a Petrobras e a Amazônia. Jovens que compartilham memes de “Bostil” não lucram com isso; apenas entregam, de graça, o terreno que esse ator precisa para avançar.

  • Noah Loren "Noren" @lemmy.eco.brM
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    1 day ago

    Não necessariamente tem alguma relação com o texto mas com o tempo me afastei de conteúdos que usavam essa e outras expressões porque normalmente é a superfície de ideias muito piores.

    Um apontamento que gostaria de fazer é que jovens e até adultos que compartilham conteúdo semelhante em redes sociais estão ganhando algo que é pertencimento quando não estão também lucrando pois redes sociais para muita gente é uma fonte de renda.

    Eles ficam sem graça e não conseguem rir quando tentar exibir esse tipo de conteúdo para alguém de fora da bolha deles e são tratados como esquisitos então é provável que os próprios se tornam alvo de zombaria e escárnio por se tornaram uma caricatura de si mesmos.

    Normalmente pessoas que utilizam esse vocabulário vão flertar com outras pautas de extrema-direita em países do Sul Global. Não estou defendendo que isso seja parte de uma grande “teoria da conspiração” apenas apontando que as pessoas buscando algum tipo de comunidade terminam tolerando esse tipo de ideia incondicionalmente e quando percebem elas aceitam ou reproduzem coisa pior.

    Um brasileiro que reproduz esse discurso não é diferente de uma pessoa negra que reproduz racismo anti-negro, uma mulher que reproduz misoginia etc. Em todos os casos uma pessoa reproduz um discurso que não privilegia, mas prejudica ela muitas vezes tentando se colocar como a exceção a regra.

    Outro ponto é que esse discurso não se traduz em rebeldia, revolta ou revolução mas em ressentimento que alimenta uma parcela da sociedade. Nenhuma dessas pessoas nunca irá demonstrar escárnio pelo próprio país pelo tratamento que indígenas e quilombolas recebem, pela falta de apoio a pessoas em vulnerabilidade, por ser uma nação com altos índices de assassinatos motivados por gênero e sexualidade e ao mesmo tempo ter um número desproporcional de casamentos infantis.

    Esse comportamento não se traduz nem Internacionalismo nem é Antiufanista muitas vezes também coexistindo com percepção negativa sobre imigrantes de outros países e pessoas de outras culturas.

  • PixelGhost@lemmy.eco.br
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    2 days ago

    Até onde eu sei, a postura “anti-Brasil” sempre foi o comportamento padrão do país. Tudo isso que você (ou provavelmente alguma IA) descreveu eu observei a vida toda, entre jovens e adultos, com apenas pequenos momentos excepcionais de ufanismo, quando algum atleta ganha competição internacional.

    • DomRodrigues@lemmygrad.mlOPM
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      2 days ago

      Nem todos possuem a sua percepção, inteligência e perspicácia. o objetivo do texto nunca foi colher louros apenas evidenciar tudo isso.